20 maio 2008

nove meses


28 de maio de 2007 – segunda feira. O dia que a gente ia comemorar os seus 37 anos, com café na cama, preguiça para acordar e interrupções do nosso pequeno Felipe. À noite, teríamos bolo e barulho. Hoje o dia começou igual pois levei o Felipe para a escola. Continuou diferente porque achei difícil deixá-lo na escola. Para ele também tem algum incômodo. Hoje foi diferente porque em seguida fui para o cemitério. Levar flores, levar lágrimas, saudades, dor no peito, dificuldade de respirar. Priga, queria segurar sua mão de novo, para eu conseguir segurar essa vontade de querer que você volte. Segurar essa tristeza tão amarga que nem meu pai conseguiu segurar. Eu não vi, mas ele chorou no domingo. No sábado, foi o Felipe que chorou de saudades. De tristeza. De dor na alma.
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Hoje eu pedi para a minha irmã dormir em nossa casa. Está muito vazia. O silêncio é alto demais e dá para escutar meu fôlego soluçando. Sinto sua falta e desmarquei uma reunião de trabalho em plena segunda-feira. Eu, tão caxias, tão responsável, tão competente. Fachada de fortaleza que hoje foi implodida. Hoje eu não consegui olhar para o sol por causa das lágrimas. Hoje não reguei as flores em casa. Hoje eu queria levar flores no cemitério. Faz nove meses que eu não vou lá. O tempo de uma gestação. Fui sozinha para não ter pressa em ir embora. Talvez seja só hoje.
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Estacionei o carro longe para poder andar. Comprei crisântemos brancos e vinho. No caminho, a alça da bolsa escorregou e quis acreditar que era você. O celular que estava no bolso da calça desligou e ligou sozinho. Alterou o relógio. De novo, quis acreditar que era você. Sentei na mureta branca. As formigas subiram no meu tênis, mas eu pensava “foda-se”. Senti picadas nas costas. Fiquei sob o sol, procurando um papel para deixar um bilhete. Uma mulher passou, parecia chorar também. “Priga, saudades de ti, meu anjo. Amor, sua Nina”. Na lateral escrevi, “I’m going back to the stars”. Um funcionário de uniforme azul passou e guardou a vassoura dentro de um túmulo. Bizarro. A calça dele estava rasgada no joelho direito. Era um corte horizontal. Coloquei o bilhete no meio das folhas. De longe, não dá para ver. Meus olhos estão ressecados e ardem porque hoje não consigo parar de chorar. Meus olhos estão úmidos e desfocados porque hoje não consigo parar de chorar. Hoje, não consigo parar de chorar.
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Preciso voltar para casa. Esqueci de trazer o livreto que foi distribuído na festa do Felipe. Atravessei um velório onde as pessoas não choravam. Elas vão chorar daqui a nove meses. Na realidade, não esqueci, fiquei na dúvida se realmente deveria ter trazido o livreto. Em casa, havia 3 recados na secretária. Dois anônimos e um da minha cunhada Patrícia. Ela queria saber como eu estava. Hoje eu estou um bagaço. Peguei um livreto com o conto da Clarice (Lispector), coloquei em um plástico menor e fechei com adesivos redondos. Três Pimacos redondos e transparentes. Ficou a marca das minhas digitais. Não faz mal. Voltei para o cemitério. Desta vez deixei o carro bem próximo do portão. O bêbado me disse bom-dia. De óculos escuros, nariz avermelhado, espalhando lágrimas pelo rosto, era evidente que eu chorava. O bêbado repetiu o bom-dia. Sua voz rouca parecia uma estação de rádio AM. Bom-dia era a vinheta gravada e reproduzida ene vezes. Desculpe, hoje eu não consigo responder.
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Alguém esteve lá neste intervalo. Deixou crisântemos brancos e uma rosa vermelha. Queria ter encontrado com essa pessoa. Precisava saber, assim como eu, quem havia deixado flores. Alguém que achou meu bilhete, leu e devolveu no meio das folhas. Entre folhas diferentes das que eu havia deixado – três ou quatro ramalhetes para baixo. Quis acreditar que era você, mesmo sabendo que não seria. Coloquei o livreto na ‘capelinha’ para proteger de um dia de chuva. “Imagino que você já tenha lido, um dia alguém irá jogar no lixo, mas este é seu. Eu precisava trazer”. Para você saber que eu estive lá. Para que todos soubessem que eu estive lá no dia do seu aniversário.
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Na saída, o bêbado se aproximou. Xingava um rapaz e dizia o bom-dia radiofônico para mim. Pedia dinheiro. Desculpe, hoje não consigo parar de chorar. Será que não enxerga isso? Sim, tanto vê que não me xingou. Fez sinal para que eu manobrasse o carro e disse novamente bom-dia. Voltei para casa. Voltei para regar as flores. Para que elas continuem vivas.

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priga, na idade do fê
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postagem dedicada à Fal e Luci
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8 comentários:

Lolló disse...

Ô, Nina...

Beijo pra ti.

Laura disse...

Nina, acredite em tudo isso que vc quis acreditar... eu acredito sempre... sempre enxergo sinais de presença... acho que isso de alguma maneira me traz um conforto... um beijo carinhoso...

Lih Figueiredo disse...

Oi Nina, só pra te dizer que tô por aqui querida, e que essa injustiça com pessoas boas dessa vida me revolta muito. Um abraço bem quentinho.

Marcos T. Hiroshima disse...

Querida Ni, hoje (ainda dia 28) vou orar e acender uma vela para o João, mas para você e para o Felipe também. Não tem como não sentir a presença dele, em você e no Fê ( e eu que sempre achei que o Fê era a tua cara ,mas vendo a foto do João na idade dele...). Beijo carinhoso para vocês.

nina disse...

demoro, mas respondo
Ô, Lolló...

Beijo pra ti também.
nina

nina disse...

oi Laura,
Eu tb quero acreditar quando acho que vai me trazer conforto... mas nem sempre querer é poder...
beijo grande,
nina

nina disse...

Lih,
mto obrigada por ser tão gentil e tão próxima!
bjs
nina

nina disse...

marcos querido,
você já sabe que tem lugar VIP no meu coração, né?
amo você
nina