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05 setembro 2010

humanidade

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Eu sou da casa 102. A Lourdes é da casa 56. A Vera, da casa 73. Hoje é o primeiro dia do feriadão de 7 de setembro. Nossa rua que já é uma travessa muito tranquila, está prá lá de sossegada.
Consersávamos sobre as mudanças no bairro, sobre a torre que vai subir às nossas costas, sobre o artista bonitão que mora na casa em frente, sobre a inquilina barulhenta que se mudou. Um papo de vizinhas sob sol intenso, próximo ao meio dia. São Paulo está cruelmente seca, rogando por chuva.
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De carro, a moradora da casa branca passa acenando. Ela vai para um casamento. Na calçada de cima, vejo o Casé, meu colega de faculdade, passeando com a filha. A conversa entre nós três segue sem preocupação.
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- A gente podia fazer uma reunião para ver se contrata um guardinha prá rua, né?
- Esse assunto é complicado. Na teoria todo mundo é a favor, mas na hora que mexe no bolso, aí o pessoal dá prá trás.
- E tem que pensar na guarita.
- No banheiro da guarita.
- Na comida e no café do guardinha.
- Ou melhor, dos guardinhas, porque vai ter que ser dois turnos...
- Nina, que cara é essa?
- Nossa, acho que tem uma pessoa passando mal - murmurei apontando para a esquina.
- Ai meu Deus, o cara tá convulsionando!
- Liga pro Samu. Alguém tá com o celular aí?
- O meu tá em casa.
- O meu também.
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Foi aí que a Vera entrou correndo na casa dela, que era a mais perto de onde conversávamos e saiu com o i-phone - gente, que número é o Samu? Discava e andava em passos largos em direção da pessoa caída. Eu e Lourdes fomos atrás.
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Quando nos aproximamos, o homem ainda tinha espasmos. Caíra de uma forma que a blusa cobrira seu rosto. Era um morador de rua. Olhei para a Lourdes, sem saber como agir. Fiquei sem ação justamente porque era uma pessoa pobre, com pele, cabelos e roupas sujas que exalavam urina. O preconceito bloqueou a minha iniciativa em tentar ajudar uma pessoa.
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Enquanto eu mantinha uma distância de pouco mais de um metro do homem no chão, Vera agachou-se ao lado dele, pressionando o celular entre a orelha e o ombro na insistência de contatar um socorro: ei, o que aconteceu com você? Com cuidado, ela descobriu o rosto desacordado. Usando as duas mãos, suspendeu ligeiramente a cabeça dele, pendurada para fora da guia e tentou reanimá-lo.
- Vou buscar uma água - saiu correndo Lourdes para sua casa.
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E eu, o que poderia fazer? Aquela cena era muito para mim. A espuma branca escorrendo pela boca do homem, me fez concluir que era algo grave. Lembrei do João caído no chão do meu quarto. Dos longos minutos que fiquei esperando pelo socorro, sem saber que movimento fazer, que palavra dizer, que rumo tomar. O sentimento onipresente é a da impotência, da percepção pobre que você é uma pessoa limitada - ora pela falta de vivência, ora pelo preconceito.
- Eu vou pegar o carro e chamar os bombeiros - prontificou-se Lourdes.
- Gente, desculpe, mas eu não dou conta disso - e saí caminhando em direção a minha casa.
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Dentro de casa, lembro ter dado três ou quatro respiradas fortes. Não posso ser tão covarde a ponto de dar as costas para isso. Talvez eu não consiga fazer o que a Vera está fazendo por um desconhecido, mas fechar os olhos porque o homem é um mendigo?
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Peguei o celular, liguei para 190, depois para 192, falei para o Felipe que estava em casa: fica aqui só um pouco porque tem um homem passando mal e a mamãe vai esperar a ambulância chegar. Depois eu te explico tudo. Dei o recado e voltei para a esquina.
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Vera ainda carregava a cabeça do homem, pacientemente, como que lhe dissesse pelas mãos que ele seria socorrido. Minutos depois, Lourdes chegou com os bombeiros. Cancelamos os chamados do Samu e da polícia.
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- Vocês conhecem ele? - perguntou um dos três bombeiros.
- Não.
- Vocês viram como ele caiu?
- Não, a gente só viu depois que ele caiu.
- Ele bateu a cabeça?
- Não sabemos.
- Parece ser algo neurológico. Não tem cheiro de bebida.
- Aquele vigia disse que ele sempre anda por aqui e que ele não bebe.
- Bom, a gente vai tratar como se tivesse um trauma. Vamos erguer e vocês empurram a maca. No três, ok?... Um, dois, três.

Lourdes e eu ajudamos a colocá-lo na maca. Foi o que eu pude fazer.
- Vocês vão levar ele para onde? - preocupou-se Vera.
- Hospital da Lapa. É o mais perto.
- O mais perto não é o Panamericano? - indagou.
- O Panamericano não aceita resgate assim. O cara é indigente. Tem que ser hospital público.
- E depois, o que acontece com ele?
- Alguém da família tem que ir buscar.
- Mas acho que ele não tem família em condições...
- Isso já não é mais problema nosso. A assistente social do hospital é que vê essas coisas.
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Voltamos para nossas casas em silêncio. Por um instante, chorei de vergonha. Talvez, sem a disponibilidade delas, não teria ajudado o homem. Passei o resto do dia pensando em como somos rasos diante do preconceito. À noite, mandei uma mensagem para a Vera agradecendo pelo ato tão natural, nobre e óbvio dela.
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17 outubro 2009

profissão leitor


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Felipe está descobrindo o universo fascinante da leitura. Ter a autonomia para decodificar uma palavra, repeti-la e compreender o contexto de uma frase. Isso me soa complexo demais para uma criança de 6 anos, mas todos nós começamos assim, não? Mesmo gaguejando, sem saber identificar as proparoxítonas em entonações que causam estranheza, a curiosidade do “ler e entender” deixa o erro de lado.
Um mundo se abre no ano da alfabetização.
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- mãe, o que é cupece?
- é o nome de uma avenida
- aquele “av” é avenida?
- é sim.... é uma forma mais simples para escrever avenida
- como o “v” de vila madalena?
- isso mesmo
- mas lá tava escrito v. mariana
- porque é um outro bairro
- o que é uma avenida?
- as ruas largas são chamadas avenidas
- não são as estradas?
- estradas são....
- ven-de-se ess-sse e-di- e-di-fi-ci-o.... vende-se esse edifício... tão vendendo esse prédio!
- muito bem filho!
- lo-tê-ri-ca sôr-te.... lotêrica sorte.... lotêrica?
- nossa, você tá lendo tudo!
- eu sou um leretrista?
- leretrista? o que é isso?
- é quem lê tudo que tá escrito ué!!!
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imagem: crie sua própria placa de rua
http://marmota.org/placasp/
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16 outubro 2009

foco

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não tente lapidar a minha raiva
eu gosto dela bruta
faz-me olhar para frente
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06 setembro 2009

hello kitty sucks

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Eu sei gente, eu sei.... o post anterior não é doce. Nem um pouco. Eu escrevi para ver se diluia um pouco a vontade de socar uma fulana. Um bicho quis pular no pescoço dela. Um instinto nada nada cor-de-rosa.
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28 agosto 2009

one, two, three years

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Renúncia
Manuel Bandeira
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Chora de manso e no íntimo... Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.
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Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será, ela só, tua ventura...
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A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer, tua desgraça.
Encerra em ti tua tristeza inteira.
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E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...

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- Então terminamos por aqui. Tem mais alguma coisa que queira me perguntar?
- O senhor está me dando alta?
- Já deveria ter dado mês passado, lembra?
- Tem certeza?
- Sim, tenho – e você também provavelmente tem.
- Eu sei doutor, eu sei.
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Dia 26 último, completou-se o terceiro ano da morte do João.
Após dois dias, tive alta do psiquiatra. O que será que me vem pela frente?
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imagem:
http://openclipart.org/media/files/rgesthuizen/5425
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20 agosto 2009

repetição

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(...)
Essas imagens são de Viagem a Tóquio, um filme de Ozu, o cineasta cujos enquadramentos severos me influenciaram na época em que filmei Santiago.
Ao fim da história, a filha caçula pergunta: “A vida não é uma decepção?” Sua cunhada responde com um sorriso franco e generoso: “Sim, ela é”.
Acho que é uma resposta que Santiago compreenderia. Enquanto viveu, ele se ocupou com seus nobres e suas castanholas. Foi salvo por coisas tão gratuitas quanto a sua dança no parque de que gostava tanto. Com elas, quem sabe?, pôde suportar a melancolia de quem suspeita que as coisas não fazem mesmo muito sentido.

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Trecho final de Santiago (por escrito) de João Moreira Salles. Esse filme, o homem Santiago, o Salles, a piscina da casa da Gávea, as mãos, a cabeça caída, o latim e o sotaque carioca, a ordem dada, o tempo, Marselhesa, o abismo, Fred Astaire, C’est tout. C’est tout. Nada disso sai da minha mente.
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03 maio 2009

dente número um

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O primeiro dente que apontou na boca do Felipe foi uma notícia na família. Hoje, esse primeiro dente saiu, no meio do almoço, com uma pequena puxadinha minha.
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Felipe está radiante com o primeiro dente fora da boca. Todos os seus colegas de classe já perderam ao menos um deite de leite. Estava preocupado achando que a Fada-do-Dente havia se esquecido dos dentes dele.
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- mãe, você pode dormir comigo no meu quarto?
- claro que posso Fê.... mas por quê?
- é que se eu dormir na sua cama ela pode achar que o dente é seu.
- tem razão...
- e você tem que dormir no chão, tá?
- no chão?
- porque na minha cama tem que dormir o dono da cama e do dente.
- ah tá.
- e você pode ficar acordada até ela chegar?
- algo mais, chefe?
- explica para ela que eu quero mostrar o dente amanhã para os meus amigos da escola.
- tudo bem...
- então hoje ela deixa a surpresa na minha cama, mas não pode levar o dente.
- não pode?
- fala para ela buscar o meu dente amanhã de noite.... entendeu?
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13 abril 2009

supertramp

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Nesses últimos dias eu li A Cabana, de William P. Young. Eu tenho dessas coisas. Leio best-sellers e depois fico me questionando porque gastei tempo com isso. Eu gosto (escondido) dessas coisas popularescas. Quis saber quem ganhou o Big Brother, mesmo sem saber quem era o fulano.

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Nesses últimos dias eu assisti Into the Wild, dirigido pelo Sean Penn. Eu tenho dessas coisas. Demoro para passar na locadora e depois fico me perguntado porque enrolei tanto para assistir esse filme. A trilha é do Eddie Vedder – só isso já me bastaria.
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A Cabana e Into the Wild falam da mesma coisa – angústia, busca, perdão e liberdade. Falam de amor sem rebarbas. Um é piegas, outro é poesia. Um é ficção, outro é suor. Um é narrativa, não literatura. O outro é esforço, vivência lapidada.


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Eu acredito em Deus.

Não naquele que eu vejo, mas naquele que eu sinto.

No que não se modela, porque simplesmente, já existe e está.
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imagem 1: divulgação A Cabana, William P. Young, ed. Sextante

imagens 2 e 3: divulgação Into the Wild.

imagem 4: Christopher McCandless, o Alexander Supertramp.

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11 fevereiro 2009

pergunta

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existe vida em você?
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imagem: Question Mark Art, Stuttgart Museum of Art
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22 outubro 2008

venus

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ela está cansada de ir buscar
ela quer ficar onde está
ela sente dores no corpo
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eu persisto no passo
eu limpo a mente
eu tolero a dor
eu minto
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ela intercala os dedos
para lembrar de outras mãos
ela toca texturas
ela usa luvas
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eu tenho fome
eu tenho frio
eu tenho sede
eu não tenho você
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eu sinto o cheiro do meu avô
os peixes são mais de mil
a fêmea é vermelha
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imagem: Birth of Venus, de Sandro Botticelli
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19 outubro 2008

eu - tu - ela

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eu corro atrás e dou voltas
eu quero te ver correr na minha direção
eu corro em linha reta pensando em um dia voltar para casa
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ela se desespera quando não atualiza leituras
ela se responsabiliza por tarefas não cumpridas
ela quer interpretar do seu jeito
ela não gosta de julgamentos
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atrasada, eu atendo o que a vida impõe
eu não gosto de julgamentos
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eu quero ser indepente - dela, deles e do meu desejo

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imagem: The Face of Charity - 1504, de Sanzio Raphael
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18 outubro 2008

lugar algum

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Ela se acostumou ao seu olhar. Para não se esquecer dos olhos claros, mantém sua foto na cabeceira. Já nem chora tanto assim, e deixa a foto ser coberta por brincos depositados ao final do dia. Ela é imprecisa, mas os seus olhos, tem o cuidado de não tampá-los.
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Ela toma banho às três da manhã para espantar o sono, porque tem medo de dormir. Ela tem medo da noite. Ela não quer ter pesadelos. Não quer sonhar com o que já se foi, com o que nunca aconteceu, com aquilo o que você não verá. Ela tem medo de não sonhar. E de acordar, ou não.
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Ela se acostumou a ir e vir com você.
Sair e voltar, subir e descer, abrir e fechar.
Ela se acostumou a ir e vir sem você.
Sair e voltar, subir e descer, abrir e fechar.
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Ela quer encontrar. Algo nela, algo em você, em algum lugar.
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Ela quer perder. Algo nela, algo em você, em algum lugar.
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Ela quer.
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imagem: Die Tänzerin, de Egon Schiele
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15 setembro 2008

máscara

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o sagrado estava lá, ao meu lado, só que na mente de outra pessoa
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eu vi, eu vi seus olhos, a caverna de seus olhos
acenei, leve, com meu lenço branco, com os dedos arqueados, com punhos pulsando, eu acenei
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você piscou e não me viu
não porque não deveria, apenas não me viu
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não sou eu, estou aqui
eu sou eu, não estou aqui
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você, feito ser divino, piscou
e eu, com os olhos dormentes,
lembrei-me que seres divinos não piscam
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o sagrado estava lá, ao meu lado, só que nas mãos de outra pessoa
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imagem: Head with a Mask, 1956 /Pablo Picasso
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12 setembro 2008

saindo do prumo

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à partir desta noite vou estar reclusa em uma iniciação espiritual
estou me propondo mudanças
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quero ver se o obscuro é divino
quero ver se o sagrado é distante
quero tocar o fundo dos meus olhos e testemunhar até onde eles alcançam

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sei a responsabilidade dos atos
sei que nada é mágica
sei que tudo é esforço

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que no domingo eu esteja alterada, deslocada dessa inércia, deste vício, desta rotina

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imagem: Rain at Auvers, de Van Gogh, 1890
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26 agosto 2008

ano + ano

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(...)
O João morreu dia 26/08/06. O Alexandre morreu dia 29/08/07 (certo?). O João se foi por causa de um aneurisma cerebral. O Alexandre, foi por parada cardíaca. Sim, foi de um dia para o outro. Sim, era jovem, saudável, normal e divertido. Sim, não usava cocaína e nunca correu a São Silvestre. Sim, estava fazendo planos e passava por um momento feliz na vida. Sim, teríamos um outro filho. Sim, tínhamos uma viagem marcada na semana seguinte da morte. Sim Nina, você é muito forte. Talvez Nina, não seja nem forte, nem companheira da fraqueza, não fique cega, nem destrambelhe, não faça nada. Solte, sim, solte. Soltar o que? Sim, foi foda, muito foda. Sim, a vida deve continuar, bola pra frente, sou muito nova, terei outros companheiros, mas como? Já passei da idade, mas vou superar, seu filho é o seu tesouro, vocês tem sorte por terem sido tão amados. O João era correto, deixou tudo pra vcs, tem isso, tem aquilo... e tem um dia longo que tudo é uma bosta. Uma bosta longa e fétida. Sim, amigos e família abrem as janelas para amenizar o intragável e aceitar um dia seguinte.
(...)
Wathever, o que eu queria mesmo te dizer Fal, é que depois de tudo o que eu li no seu blog, depois de tudo o que eu escrevi sobre a dor de perder algo precioso, eu sei que João, Alexandre, Lígia, e tantos outros, têm o mesmo significado. São pessoas que nos aproximam de sentimentos e laços, saudades e porquês, amor-dor-amor-dor-amor. São pessoas que nos chacoalharam para a vida em seus abraços e que agora temos a vida chacoalhada por falta deles. Talvez seja isso que nos torne reais e possíveis. Inteiras ou despedaçadas, mas presente todos os dias.
(...)
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Faz um tempo, eu escrevi essas palavras (adivinha aonde?) no LV do Drops da Fal.
Hoje, dia 26 de agosto de 2008, tenho motivos para colocá-las aqui no nana-nina-não. Faz dois anos que o João se foi. Faz dois anos que aprendi a duvidar do que é certo ou errado. Faz dois anos que fiquei diante do olho do furacão. Há dois anos estou em terapia. Em dois anos, vi que não existe nada que seja absoluto, que a crença no amanhã só depende de hoje e que ontem já passou. Aprendi que escrever conforta, mas reler o que foi escrito ainda é doloroso e não redentor. Neste tempo, levantei muralhas, passei cadeados e esqueci janelas abertas. Nesse tempo, aprendi a reconhecer a dor e a não temê-la, menos quando ela me paralisa. É um tempo que não se define em palavras, porque é importante demais, é urgente demais, é vida e morte demais. Porque hoje, hoje faz dois anos.
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imagem: Suonando Bach, Man Ray
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15 julho 2008

susto

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- quem é você?
- o pior dos seus pesadelos
- caralho – então eu sou você?

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imagem: Black and White Images
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08 julho 2008

brancos

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... e todas as pinturas, recentes ou antigas, nítidas ou não, desbotam-se a cada tentativa de recordá-las ou de reconstituí-las. Somente algumas breves nuances de brancos não se apagam jamais.
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Ontem eu quis negar aquela beleza. Por onze, talvez doze minutos incompletos e interpretados. Uma dança de movimentos arranjados, que de tão mecanicamente repetidos convergem-se em superfícies de luzes divinas e sons seqüestrantes, absolutos e plenos. E fascinantes. E belos por excelência.
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Um forjado estado de surdez distanciou-me da sedução, da fusão cúmplice do casal de bailarinos naquele ato. A combinação inaudível de quatro mãos que se atraem porque são de um mesmo membro, de um mesmo corpo, de uma única fala – seja a minha pele. Abstraio meus sentidos e recrio os cabelos-pincéis daquele homem que retratava nossa relação em cores vivas. Nas pinturas, e nele, eu via o rubro dos meus pêlos por seus olhos. Seus pingos de suor deixaram-me sinais no rosto. Por muitas e muitas luas, sentia pernas aquecidas a se deslizarem úmidas, trançadas, inseparáveis. Sou sua pele.
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Amputaste meus dedos, não te toco mais.
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Um sussurro na platéia produz faíscas da dança leviana em meus ouvidos. Peço-lhes por favor, mantenham-se mudos e cerrados. Continuo na lembrança dos cheiros ruidosos desfazendo-se entre intervalos de uma respiração ofegante e soluços abatidos. Transpiro êxtase ao absorver aquele único orgasmo após o penúltimo. Pulsante e etéreo. Pulsante e eterno.
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No palco, feito fotografia em movimento, a sincronia do casal exibia a plenitude que ora eu repudiava. Dança, música e silêncio. Silêncio ofuscante para me reavivar nas pinturas de cores gastas. Não carrego mais o verde para retocar seus olhos. Procuro por toda a casa, por dentre as estantes, atrás das cômodas. Outras luas se vão e retoco-os com o pouco que me resta de tinta amarela. Antes que seus preciosos olhos se percam.
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Vejo-me refletida na íris amarelo-opaca, exausta do escárnio desta dança alheia cultuada por tantos outros, mas ainda assim, bela, belissimamente completa. Que a fortaleza desta composição escorra com a chuva que está por vir e estilhace-se em gotículas numa sarjeta qualquer. Água torrente, caia e anavalhe minhas pupilas pois as lágrimas já me faltam. Façam lâminas desta dança maldita, dolorosamente perfeita. Se os olhos não me choram, para que me serve a visão? Chuva, lave as poucas cores ainda nítidas das pinturas do passado. Desfoque minhas memórias, desbote-me a ausência deste homem, dissolva sua saliva no vento sul. Enfim, seque seu gozo, seu gosto, seu perfume, sua voz. Cesse suavemente nossa ária.
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(Somos vulneráveis. As condições inexplicáveis que se auto-explicam somente pelo tempo. Aquelas que se tornam desgastadas e por fim diluídas para convivermos juntas - as mesmas que não são compreendidas porque ainda enxergamos com os olhos de ontem.)
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Encerra-se a dança, restauro minha lucidez com os aplausos. Sim, deixem-me apenas entre os aplausos - os mais vigorosos, os perpétuos. São as matizes da minha arte. Os brancos que não se apagam jamais.
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02 junho 2008

clipping

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As coisas inexplicáveis que se auto-explicam somente pelo tempo. Aquelas que se tornam desgastadas e enfim diluídas para convivermos com elas - as mesmas que não são compreendidas porque ainda enxergamos com os olhos de ontem.
Eu não vejo mais com olhos passados. Hoje eu uso óculos.

***

Não sei porque, alguém do hospital ligou no meu celular pedindo que eu levasse as roupas dele antes de seguir para a funerária. Não ligaram para minha mãe nem para meus tios. Saí mais cedo do trabalho, passei na casa da minha mãe, peguei as roupas e fui para o hospital.
Um funcionário me levou até uma ante-sala do necrotério e perguntou: "Você quer eu te ajude?". Foi aí que eu percebi que o corpo do meu avô estava lá e respondi: "Acho que não precisa".
Vesti o meu avô, peça por peça. Coloquei a cueca, a camisa, abotoei cada botão, pus o terno e a calça. Antes de colocar as meias, cortei suas unhas. Ele gostava de andar de tênis. Fiz a barba, penteei os poucos cabelos que ele ainda tinha e o deixei sem gravata. Não se veste uma pessoa morta todos os dias, mas ele era o meu avô. Naquele momento, aquilo era normal.

***

Belo, simples e generoso: você, o dia de ontem e o dia de amanhã. Nada mais para justificar a leveza do nosso agora.
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19 maio 2008

fôlego

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Ontem eu respirei. Respirei, respirei, respirei. Muito. Até cansar, até querer parar de respirar, até explodir, até a unha descolar porque tinha muito oxigênio dentro de mim. E vibrava e delírio e dedos rígidos e tristeza e vibrava e moleza e suor e olho fechado e rinite e boca seca e incha e esvazia e explodiu no peito e sonho e diarréia e queria de novo e tremia e tosse e chorava e ria e raiva e vibrava e tambor e magipac e nada se controlava.
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Não foi fácil. Sempre escutei o contrário. Não foi fácil. Fiz força, usei todos os músculos, fiz força, empurrei, prenderam meu cabelo, não dá para chutar, fiz força, retomei o fôlego, fiz força, usei o cotovelo, fiz força, oxigênio, peso, calor, fiz força, me solta, me solta, fiz força, eu sei, eu sei, fiz força, sai, sai, fiz força, força, força. Não foi fácil.
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Ontem eu respirei. Respirei, respirei, respirei. Muito.
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15 maio 2008

a casa dos meus pais

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É um quadro enxaquecoso – disse a médica.
A minha dor de cabeça resumida nessa palavra sonora e cômica. En-xa-cue-cuoso. Não se leva a sério uma dor com esse nome. Eu queria um diagnóstico agudo, pontiagudo, que descrevesse turbinas inflando a cabeça, que justificasse não ter vergonha de vomitar no táxi a caminho do hospital. Uma coisa mais sólida, mais trágica, mais nobre, que me fizesse passar a noite na casa dos meus pais.
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Faz anos que aquela casa não é mais minha – é a casa dos meus pais, de onde a gente sai porque a vida segue. Um lugar de onde a gente sai deixando armários longe de estarem vazios, uma série de livros lidos e todas as roupas de inverno. Um dia a gente passa por lá para pegar alguns casacos porque o inverno chegou. Outro dia, porque mais cedo ou mais tarde, tem jantar na mesa. É a casa que recebe os netos quando os pais estão ocupados ou mesmo desocupados. É a casa que guarda os brinquedos que passaram da idade, mas que ficam lá, porque sempre tem alguém que resguarda as lembranças. É a casa que você conviveu com seus avós, quando eles já estavam na idade de serem avós. É o endereço onde chegam suas correspondências sem importância. Melhor chegar lá, do que chegar em lugar algum. É onde seus amigos supõe que você esteja quando não está em casa. É a casa que você melhor conhece, até mais do que o seu próprio lar-doce-lar. É a casa que você quer opinar na época da reforma. É a casa que você faz planos mesmo não sendo sua. É onde você acha que tem direito de parar na vaga bem em frente, porque afinal, a casa é dos seus pais.
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É a casa que você pendurou fotos, posters e quadros, escondeu coisas secretas, pulou muros para entrar pelo quintal. É o lugar que muitas vezes te fez reclamar do barulho tão cedo de manhà e sob as cobertas, via a luz sendo acesa para avisar que a hora já se passava. É a casa que tem batentes ocos e fechaduras emperradas porque quarto de criança não se tranca, apenas se encosta a porta. É onde, mesmo sem dizer, a gente sabe que quarto dos pais só pode entrar se a empregada estiver limpando, ou quando filhos sonham mal.
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Foi nesse quarto que a mãe cedeu a cama para que a filha - tão cansada da vida e tão ansiosa pelo futuro imaginado – fosse acolhida naquela noite. E a filha se deitou sem se queixar do dia que estava terminando, com os olhos semi-cerrados para que não se revelasse uma dor de cabeça já distante. Para que ela pudesse ficar deitada reconhecendo o cheiro das pesadas cobertas daquela cama. Para que ela dormisse ao som das tigelas de porcelana sendo empilhadas nos armários de 2 portas. Para que ela lembrasse de todos os sons da cozinha após o jantar. E que assim, momentos mais tarde, a mãe pudesse entrar no quarto em silêncio para cobrir a filha que dormira feito criança.
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