28 julho 2009

come and go

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terça feira, placas finais 3 e 4

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The Visitor, filme belíssimo depois de um jantar no Vito
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antes de deitar, música magnífica no fone de ouvido

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End of the Road
Eddie Vedder
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I won't be the last

I won't be the first

Find a way to where the sky meets the earth

It's all right and all wrong

For me it begins at the end of the road

We come and go...
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Do caralho – boa noite.
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imagem 1: Restaurante Vito R. Pascoal Vita, 329, Vila Beatriz, tel.: 3032-1469
imagem 2: cena do filme The Visitor, de Tom MacCarthy

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24 julho 2009

a gripe nota A

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“Senha 4211” – piscou o painel.
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- o que a senhora está sentindo?
- dor no corpo, dor de cabeça, calafrios, enjôo, muita coriza
- febre?
- sim
- tosse?
- pouco
- esteve no exterior nas últimas duas semanas?
- não
- é só a senhora aguardar na recepção que vão chamar pelo número da senha... o tempo para atendimento é de aproximadamente 4 horas.
- 4 horas?
- a procura está bastante alta... se o caso da senhora for considerado grave, será dada prioridade
- eu mal me agüento em pé.... vou ter que esperar 4 horas para saber se o meu caso é grave?
- não, não.... a senhora vai primeiro passar pela triagem... em no máximo 2 horas.
- ok, obrigada
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A fim de entreter a espera das breves horas numa disneylândia de vírus e bactérias, a tv fica permanentemente ligada, sem som, apenas com “close caption” – aquela legenda feita ao vivo, com um monte de erro de digitação. A repórter do jornal Hoje da rede Globo dizia: Saõ Paluo e Paraná confirmam mais 2 morrtes pela gripe A (H1N1(). Já saõ 22 as mortes no Brasil.
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Nas primeiras duas horas de espera fiz algumas especulações. Como um hospital de gente chique do Morumbi, de gente informada, esclarecida, cheirosa, de pele bronzeada em pleno inverno, que usa bota-cano-alto-de-couro-de-verdade sobre a calça-jeans-Diesel-original, estava tão lotado daquele jeito? Vi que estava numa bela roubada, rodeada de gente que vive indo pro exterior, que foi dar uma esquiadinha em Bariloche, fez um pit stop em Buenos Aires e voltou com o sintoma da gripe. Aposto que se eu dissesse que tinha vindo de Osasco, aquilo esvaziava num instante.
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Delícia de tarde. Impossível não deixar transparecer um certo incômodo quando alguém próximo de você tosse sem cerimônia. Segundo a etiqueta da gripe, é elegante cobrir o seu cuspe de gotículas com um lenço descartável. Diria que é no mínimo, ter um resquício de bom senso. No entanto, em menos de 10 minutos naquela recepção, percebi que tanto fazia usar máscara, lenço kleenex, manga de blusa, palma da mão, ou nenhuma das anteriores: o barulho da tosse é arrepiante de qualquer jeito. Aquilo é o som da gripe. Com um pequeno esforço imaginário, o cospe-cospe de tosses, resmungos, gemidos, criava o coro irônico dos nossos irmãos suínos nos lembrando que a vacina ainda só foi desenvolvida para os quadrúpedes. Há-há-há-oinc-há.
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Apesar da cabeça latejando e os olhos espremidos, deu para reparar em um monte de gente. Tinha a mãe e a filha, vestidas de par de vaso, mesmo corte de cabelo, bolsas iguais, unhas impecáveis. Nem pareciam doentes. Encontraram com um amigo do clube Paineiras que ficou espantado em vê-las ali. Elas disseram que estavam com tosse. Eu fiquei pelo menos 2 horas e meia sentada na frente delas e não notei elas tossirem. Deviam ser figurantes.
Tinha o chefe moderninho dando esporro em todo mundo do escritório pela câmera do netbook porque deu merda em alguma coisa.
Tinha a moça que só gemia. Dormia e gemia.
Tinha o rapazinho que veio direto do treino do futebol porque levou uma entrada do amigo no tornozelo. O amigo, é claro, veio junto carregando a mochila e chuteira do outro.
Tinha a estagiária recém contratada no emprego novo, preocupadíssima em voltar logo para o trabalho.
Tinha a mocinha que comeu 3 bananinhas de paraibuna porque era o que o dinheiro dava para comprar na lanchonete. Essa era eu.
E tinha mais um mundaréu de gente impaciente (com razão) desfalecendo, tossindo, fungando, se contorcendo nas cadeiras, olhando toda hora para o painel das senhas.
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Bom, e falando em senha de atendimento, enfim fui para a triagem.
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- senhora, a febre está muito alta
- está? só sei que tudo dói
- vou colocar essa bolinha vermelha na ficha da senhora que é para sinalizar os casos mais graves
- então o meu caso é grave?
- a senhora tem 39,4° de febre
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Em menos de 20 minutos, eu estava sendo examinada pelo médico.
- o que te traz aqui?
- estou com os sintomas da gripe suína.... queria me certificar que não é
- mas você nem tem febre....
- não tenho?
- deixe me ver.... nossa, tem sim, tem sim.... vou te examinar.... dói aqui?
- um pouco
- e aqui?
- não
- assim dói?
- não muito
- sinusite não é.... vamos ver a garganta.... põe a língua pra fora...
- aaahhh
- mais uma pouquinho.... não tem nada, nenhum pus....
- a garganta é a única coisa que não dói
- agora os pulmões.... respira fundo.... mais uma vez..... de novo.... é, seu pulmão também tá limpinho
- mas então o que pode ser?
- é uma virose
- juuuuuura??
- vou te dar um medicamento para baixar essa febre – profenid intramuscular, tudo bem?
- tudo.... então eu não preciso me preocupar com a gripe suína?
- você tem todos os sintomas da gripe suína... é muito difícil dizer que não é
- como assim?
- eu posso te encaminhar pro Emílio Ribas, você fica no isolamento, mas se não tiver a gripe, você acaba pegando lá....
- então pode ser que eu esteja com o vírus?
- pode ser que sim, como poder ser que não
- mas e o tratamento??
- é melhor ficar no isolamento da sua casa, não é?
- claro que sim.... mas eu posso ir para casa assim?
- tente ficar sozinha por 72 horas, beba bastante líquido, não pegue friagem e tome este antigripal
- só isso?
- só.... melhoras para a senhora, qualquer coisa é só voltar aqui
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“Senha 4041” – piscou o painel.

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- o que a senhora está sentindo?
- dor no corpo, dor de cabeça, calafrios, enjôo, muita coriza
- febre?
- sim
- tosse?
- muito pouco
- esteve no exterior nas últimas duas semanas?
- não.... anteontem estive aqui mesmo – com os mesmos sintomas
- é só a senhora aguardar na recepção que vão chamar pelo número da senha... o tempo para atendimento é de aproximadamente 2 horas.
- 2 horas?
- a procura está bastante alta... se o caso da senhora for considerado grave, será dada prioridade
- o meu caso é grave.... a triagem de anteontem colocou uma bolinha vermelha na minha ficha.
- minha senhora, por favor aguarde ser chamada
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Alguns minutos depois...
- quer dizer que a senhora esteve aqui na terça feira e acha que não melhorou nada?
- a febre abaixou, mas a dor de cabeça piorou muito
- consegue abrir os olhos?
- não
- sente tonturas?
- sim
- como a febre não está tão alta, vamos descartar a gripe suína
- mas será que pode ser alguma coisa além da gripe suína? Tipo sinusite, labirintite, otite, estalactite, Lilo & Stich, ou algo parecido?
- vou pedir um raio-x dos seios da face e um do pulmão, está bem? e também uma picadinha de corticóide
- ok
- e vamos aproveitar para fazer uma coleta da mucosa para exame, está bem?
- coleta da mucosa?
- nós encaminhamos direto para o laboratório de análises.... o resultado chega em até 15 dias
- resultado de quê?
- do vírus H1N1 – o da gripe suína
- ué, mas já não descartou essa hipótese?
- sim, mas você pode estar com o vírus
- ah tá – eu devo ser meio limitada... não entendo o que vocês falam...
- pode me acompanhar por favor, senhora
- pois não skavuska
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Quatro horas mais tarde, eu estava de volta em casa, com quatro chapas de radiografias, uma sinusite aguda, uma pneumonia leve, a receita do antibiótico, a mesma dor de cabeça que não me deixava abrir os olhos e a recomendação de cinco dias de repouso absoluto.
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Como faz falta o velho e bom médico de família. Especialidade em extinção.
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imagem 1: Obama_swine flu,

http://www.twitpic.com/443gg
imagem 2: bacon wallet a venda na http://shop.neatorama.com/
imagem 3: influenza vírus 3D
imagem 4: estampa de camiseta a venda na
http://shop.neatorama.com/
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14 maio 2009

o ego-self do caqui

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- muito bom esses caquis que você trouxe, Nina.
- que bom mãe...
- são caquis bem conscientes.
- eles pensam?
- os conscientes duram mais.
- sei... eles não ficam molengando, né mãe?
- conscientes, doces e firmes
- que virtude... eles devem trabalhar a mente
- é sim, Nina... foram os japoneses que trouxeram a semente....
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imagem: o caqui pensante foi retirado deste blog http://eugostodeumacoisaerrada.wordpress.com/
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04 maio 2009

vocabulário

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- mãe, olha como eu sou pláxido!!
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03 maio 2009

dente número um

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O primeiro dente que apontou na boca do Felipe foi uma notícia na família. Hoje, esse primeiro dente saiu, no meio do almoço, com uma pequena puxadinha minha.
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Felipe está radiante com o primeiro dente fora da boca. Todos os seus colegas de classe já perderam ao menos um deite de leite. Estava preocupado achando que a Fada-do-Dente havia se esquecido dos dentes dele.
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- mãe, você pode dormir comigo no meu quarto?
- claro que posso Fê.... mas por quê?
- é que se eu dormir na sua cama ela pode achar que o dente é seu.
- tem razão...
- e você tem que dormir no chão, tá?
- no chão?
- porque na minha cama tem que dormir o dono da cama e do dente.
- ah tá.
- e você pode ficar acordada até ela chegar?
- algo mais, chefe?
- explica para ela que eu quero mostrar o dente amanhã para os meus amigos da escola.
- tudo bem...
- então hoje ela deixa a surpresa na minha cama, mas não pode levar o dente.
- não pode?
- fala para ela buscar o meu dente amanhã de noite.... entendeu?
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02 maio 2009

amor de dois

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Querida amiga,
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Só a primeira frase do seu e-mail já é o suficiente para topar. "Eu fiz um livro". Você escreveu, colecionou, se emputeceu, se retirou, se lançou, o escambau. Você fez um livro, linha por linha, capítulo por capítulo. Você costurou as folhas desse livro. Será uma honra ter polvilhado um fermento, mesmo que ínfimo, nessa sua obra. Ter te reencontrado depois de 20 anos justamente no ano que esse livro se fez.
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Quando li "O ano do pensamento mágico" pensei em escrever sobre os 12 meses pós-morte do João. Para mim, todos esses meses já se passaram e hoje já não faz muito sentido correr para esse tempo. Acredite, tenho inveja da sua coragem por ter conseguido sobreviver os 365 dias do seu livro.
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bom domingo, boa leitura, boa xícara de chá
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nina
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imagem: Southern Heights II, Bea Danckaert
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29 abril 2009

o lanche de amanhã

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Lembro que meu uniforme do jardim de infância era um avental laranja com um grande bolso em formato de fatia de melancia. Esse bolso era especial, repleto de cacos ressecados de massinhas de modelar, punhados de areia, tocos de giz de cera. Era a morada de famílias de tatu-bolas, que eu tentava levar para casa todos os dias – e minha mãe os expulsava antes de entrar no carro, lá mesmo no portão da escola. Bolso de roupa de criança carrega sempre uma surpresa. Com o Felipe não podia ser diferente.
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Ontem, depois da escola, passei na Arpoar. É uma loja de roupas que eu adoro e o Fê faz cara de tédio. Ele tem o gene do pai.
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- Ficou bonito esse casaco na mamãe?
- Vamu embora, mãe. Tô com fome.
- Que cor você acha mais legal... vermelho ou roxo?
- Azul.
- Azul? Onde você viu o azul?
- Anda logo mãe....
- Só um minutinho Fê...
- ....
- Esse é o último cabideiro prá ver, tá?
- ....
- Ai ai, vou levar esse aqui mesmo.
- .....
- E aquele ali, você gostou?
- Mãe.... vamu logo....
- Já tô pagando, já tô pagando.
- É débito ou crédito? – perguntou a moça simpática da loja.
- Débito, por favor.
- Mãe, olha o que eu achei.
- O que é isso? Parece casca de árvore.
- Quer uma mordida?
- Mordida? Você tá comendo isso, Fê?
- É gostoso, mãe.
- Onde você pegou isso?
- Tava no meu bolso.
- Mas o que é isso?
- É carne seca.
- Carne seca?
- O Rafa trouxe no lanche.
- No lanche?
- Pode digitar a senha – interrompeu a moça segurando a risada.
- Fê, isso não é comida de cachorro não?
- A gente trocou. Eu dei um brigadeiro do meu lanche e ele me deu a carne seca.
- Carne seca de lanche? Nunca vi isso.
- Pergunta pra mãe dele onde que ela comprou.
- Por quê?? Você também quer levar carne seca de lanche?
- Eu quero.
- Putz Fê... jura mesmo?
- Eu vou guardar esse pro lanche de amanhã.
- Esse qual?? Tem outra carne seca aí??
- Ué mãe.... é uma pra cada bolso...
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o pedaço para o lanche de amanhã

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23 abril 2009

mãos dadas

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Ela quer confiar no seu passo.
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Olhe para mim ao menos uma vez.
Você não cuida de mim. Não segura na minha mão.
Eu estava me afogando.
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Ela quer ser vista.
Ela quer amor, colo não basta, teoria não serve.
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Ela pede uma resposta.
- Calaboca! Eu não quero falar disso!
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Ela quer uma reação.
Ele a reconheceu.
Ela sorri.
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13 abril 2009

supertramp

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Nesses últimos dias eu li A Cabana, de William P. Young. Eu tenho dessas coisas. Leio best-sellers e depois fico me questionando porque gastei tempo com isso. Eu gosto (escondido) dessas coisas popularescas. Quis saber quem ganhou o Big Brother, mesmo sem saber quem era o fulano.

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Nesses últimos dias eu assisti Into the Wild, dirigido pelo Sean Penn. Eu tenho dessas coisas. Demoro para passar na locadora e depois fico me perguntado porque enrolei tanto para assistir esse filme. A trilha é do Eddie Vedder – só isso já me bastaria.
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A Cabana e Into the Wild falam da mesma coisa – angústia, busca, perdão e liberdade. Falam de amor sem rebarbas. Um é piegas, outro é poesia. Um é ficção, outro é suor. Um é narrativa, não literatura. O outro é esforço, vivência lapidada.


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Eu acredito em Deus.

Não naquele que eu vejo, mas naquele que eu sinto.

No que não se modela, porque simplesmente, já existe e está.
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imagem 1: divulgação A Cabana, William P. Young, ed. Sextante

imagens 2 e 3: divulgação Into the Wild.

imagem 4: Christopher McCandless, o Alexander Supertramp.

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09 abril 2009

uma mulher, duas meninas e quatro ovos

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Eu era a segunda pessoa na fila do caixa. Atrás de mim, uma mulher com a minha idade passava as moedas de uma mão para outra, feito areia na ampulheta. Era uma daquelas lojas do Largo de Pinheiros que vende doces por atacado. Fui comprar as lembranças de Páscoa para as professoras do Felipe.
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- Será que esse ovo é gostoso? – a mulher perguntou erguendo dois ovos de páscoa de uma marca desconhecida.
- Eu não conheço – respondi fazendo pouco caso.
- São para as minhas vizinhas.
- Sei.
- Duas meninas tão boazinhas. A mãe delas sumiu.
- Que coisa não?
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Conforme abria um espaço no balcão do caixa, eu ia colocando as embalagens de bombom Nestlé.
- Eu não sei direito, mas acho que ela foi morar com algum namorado. Largou as meninas sozinhas.
- São pequenas?
- Seis e nove anos.
- Não tem mais ninguém morando com elas?
- Hoje elas vão embora pra Paraíba. A avó veio buscar.
- Elas não tem pai?
- Tem não. Faz mais de mês que a mãe largou as meninas. Ontem mesmo, fui eu que coloquei as roupas delas nas sacolas pra levar embora.
- Que triste isso.
- Enquanto elas viam televisão na minha casa a mais nova disse pro meu marido que queria encontrar a mãe antes da avó chegar. E que queria ganhar um ovo de páscoa da mãe. Meu marido mandou eu comprar um ovo prá elas antes de voltar pra casa. Tomara que dê tempo de entregar.
- Você não quer passar na minha frente? São só esses dois ovos, não é?
- Nossa moça, vou passar sim. A mãe eu não consigo trazer de volta, mas o ovo de páscoa eu posso dar. Aí elas podem ir comendo no caminho pro norte.
- Pode passar então.
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A mulher segurava os dois ovos em uma mão e as moedas na outra mão. Fiquei sem graça quando ela esbarrou desajeitada nas minhas caixas de bombom empilhadas no balcão do caixa.
- Desculpa moça.... eu fico pensando nas meninas.... na cara delas quando eu der o ovo... – imaginou a mulher com os olhos fundos e um sorriso raso.
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Rente à calçada um ônibus dá a partida. Destino: Olaria do Nilo.
- Ô motorista! Eu vou nesse aí! – gritou a mulher apressando o homem à sua frente que terminava de pagar as compras.
- São R$ 3,80 – disse o rapaz do caixa para a mulher.
- Moço, eu tenho R$ 3,50. Eu pego ônibus aqui todo dia. Eu pago o que faltar amanhã sem falta. É que eu preciso muito levar esses ovos.
- Pode deixar que eu pago – intervi sem pensar.
- Não moça, eu passo aqui todo o dia. Amanhã eu trago pra ele.
- Deixa que eu pago – repeti – e cobra mais esses dois aqui, por favor – disse apontando para os chocolates com embrulhos da Hello Kitty.
- Deus te abençoe, moça. Deus te abençoe.
- Esses vêm com brinde. As crianças gostam dessas coisas. Olha, o ônibus vai sair.
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Afobada, a mulher ensacou os quatro ovos e seguiu apressada em direção ao motorista que a esperava. Dentro do ônibus, antes de se sentar, abriu a janela e acenou:
- Boa Páscoa, dona! Boa Páscoa!
- Pra você também – respondi baixinho.
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imagem: Woman With Amphora, Henri Matisse
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