30 setembro 2008

mutante

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Gente, eu tenho ficado em dúvida sobre a paternidade do Felipe. Sei que isso não é assunto para brincadeira, mas esses dias ele tem agido estranho. Anda sombrio, com a respiração meio ofegante. Levei uma amostra de sangue para análise de DNA. Tomara que seja só uma mutação genética, porque desse jeito, ele não é a cara do pai nem morto.... ai que trocadilho imbecil...
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A foto menor foi tirada no metrô, na volta da terapia, em pleno horário de pico. Esse mini-darth-vader veio causando da estação Ana Rosa até a Vila Madalena...
Figurinha esse Felipe...
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amor de dois e mais

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uma carta de amor:
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(...) o Tato e a Nina? Ah! esses sim eu os conheço a fundo, esses eu os amo! Fui deitar, mas não conseguia dormir. Ainda aquelas palavras estavam em minha mente e que apesar de terem me tocado, não sabia bem o porquê. De repente me veio o Jorcilei na cabeça, lembrei me dele na cozinha, aí as coisas foram ficando claras: poderia comer a mesma comida do Jou num restaurante, mas não teria o mesmo sabor daquela que o próprio Jou prepara, na cozinha dele, no toque que ele dá, no tempero que ele mesmo colhe do vazinho da sala. O chef do restaurante eu não sei quem é, mas o Jou eu o conheço e o amo também. Isso faz toda a diferença! Caí no sono logo em seguida.

Beijos,

M.

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imagem: Summer Bouquet, de Pablo Picasso
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29 setembro 2008

suspiro de arantes

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pele indiana, Londres nos olhos
receitas de gengibre e cardamomo
fios grisalhos, presos ou soltos, o verbo é nobre
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relata por prazer, por crença, por verdade
rotina de fé, vivência, criação
Galileu e Le Monde
a chegada na fronteira oposta do limite
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trança sete leis sagradas com maestria
domina além disso eu sei - e com voz suave
conta-nos porque aquela não está na ciranda
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faz graça da devoção
faz sons que traz meu avô
faz de conta que você já viu
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e
respira
e
respira
e
nunca
e
único
e
limpo
e
ecoa
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ecoa
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eco
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e
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minha homenagem a Arantes, que tive o privilégio de conhecer em dias abençoados
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A natureza às vezes se excede. E reúne, num só homem, uma quantidade de talento capaz de suprir um século inteiro.(...)
A obra científica do poeta Goethe, de José Tadeu Arantes

publicado em Galileu nº 100
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imagem: Colour Study Squares, de Kandinsky
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28 setembro 2008

amor de dois

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- mãe, o que você quer ser quando crescer?
- puxa! que pergunta difícil filho! acho que eu quero ser uma pessoa melhor
- pode escolher outra coisa mãe....
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imagem: Head, de Pablo Picasso
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27 setembro 2008

volta no quarteirão

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vou levar minha mãe para dar uma volta no quarteirão
ela está arrasada
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Paul Newman morreu
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finesse

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Conversa na porta da escola entre pai-de-coleguinha e mãe-nina
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- e aí Nina! já decidiu em que escola você vai colocar o Felipe?
- nossa... que maratona, não? escolhi o arrozal das dores
- é mesmo? eu já ouvi falar nessa escola... não é aquela escola de bicho-grilo?
- engraçado... não tive essa impressão não....
- fica tranqüila.... os pais é que são bicho-grilo
- ah tá.... mas como assim?
- tem jornalista, escritor, músico, arquiteto, terapeuta....
- sei... arquiteto....
- mas a escola parece que é boa, muito boa!
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Esse pai-de-coleguinha usava sapatos brancos.
Médico, dentista, veterinário ou bicheiro?
Com certeza, é bicheiro. Para ter bicho-grilo no vocabulário, esse cidadão só pode ser do reino animal.
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imagem: Untitled, Blocher Lithograph
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26 setembro 2008

dmband

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pessou-as, programaço
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dave matthews band dia 28 jockey SP
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imperdível, mesmo sem LeRoi Moore
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... desapega nina, desapega
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imagem: dmband, foto divulgação
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eu estou ecofriendly, você está ecofriendly?

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Quando eu era criança, para comprar uma cerveja ou um refrigerante, tinha que levar vasilhame para o supermercado. Se tivesse festa, a gente juntava vasilhame das casas dos tios, dos vizinhos, de quem fosse para poder comprar bastante bebida. E todo mundo emprestava, mesmo quem não tivesse sido convidado para a festa. Depois a gente devolvia a garrafa vazia para os donos camaradas. Era uma coisa bem solidária.
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Eu lembro que o balcão dos vasilhames ficava ao lado do guarda-volumes, os dois do lado de fora do supermercado. Era lógico o sistema. A gente chegava carregando as garrafas nas sacolas de feira, deixava as garrafas vazias e guardava as sacolas, também vazias, nos escaninhos do guarda-volumes. Não se entrava no supermercado com sacola vazia, para que a luxúria-avareza-gula não se manifestasse durante as compras. Era para o nosso próprio bem. Na hora de embora, levava tudo cheio: garrafas, sacolas, mãos e moral.
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Hoje o ritual é outro.
Primeiro que sacola de feira é fashion. Chama ecobag. É feita de fibra de semente de carnaúba do noroeste do amazonas, do lado brasileiro para bem dizer. Próximo lá da tribo xexêba. A fibra não vem da cultura extrativista. Ela é derivada do bagaço do cocô da vaca leiteira. Tudo tão bem lavado, que nem cheira mal.
O segundo ponto é que hoje a gente coloca os vasilhames nos conteiners, ou recipientes, ou caixotes pintados com cores primárias e com desenho de flechinhas, tipo um Orobouros, só que triangular. Tudo para ser reciclado. E outra, vasilhame é palavra antiga – agora é ecopet.
O terceiro quesito diz que é correto a gente entrar nos supermercados com as tais sacolas vazias. Quanto mais ecobags, mais consciente você é. Na sua carteirinha de vida vão ter várias estrelinhas do titio Deus dizendo que deixou um mundo melhor para as nossas crianças.
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Dito isso, eu estava na fila do caixa do pão-de-açúcar da panamericana. Na minha frente, estava o casal cidadania exemplar. Cada um carregava três ecobags. Sério gente, três! Uma em cada ombro e a terceira na mão direita. Os dedos estavam gangrenando, mas o reconhecimento valida o esforço. Quase pedi para tirar uma foto com eles.

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A moça foi passando as compras e o moço foi tirando a embalagem daquilo que já tinha sido registrado. Tchau caixa de sucrilhos, tchau plástico que envolve 6 latas de coca zero, tchau caixa de tampax... péra aí... o cara tá abrindo caixa de tampax??
Tem dó, né pessoal! Ainda bem que a moça falou “não môôrrr, é melhor levar esse na caixa mesmo”.
A moça parecia mais sensata. As ecobags dela eram bem discretas, bem costuradas por sinal. Não tinha marca, só estava escrito Raia de Goeye. É raio de sol em espanhol. Gente chique. Agora os do moço, tinha umas âncoras, uns pontos de crochê desenhados, cor de bandeira dos EUA, gosto duvidoso. No meio, dava para ler Yatchsman. Deve ser ecobag em inglês, né?
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Tchau embalagem disso e daquilo e foi me dando uma ziquezira animal. Nas compras do casaleco, digo eco-casal, tinham sete latas de batata pringles, suco canadense de romã e uva, pipoca de microondas igual de cinema, confeitos de amêndoas portuguesas, quatro tabletes do lindor milk, marzipan alemão, dois pacotes de café spress....
Putz, tudo o que eu a-do-ro, mas que não dá coragem de comprar porque eu prefiro comer todos os dias até o próximo salário.
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Nada de coisa básica gente. Nada. Não tinha uma frutinha sequer (nem das secas), um repolhinho, um nabinho, um alpistezinho, um leitinho, um peixinho... Essas coisas podem sujar as ecobags e deixam elas fedidas. Aí tem que jogar fora e comprar outro. Definitivamente, isso é anti-ecológico.
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Chegou a minha vez e vou encaixotando as compras. Não uso os saquinhos - não sou tão poluidora assim - sou adepta das caixas de papelão que ficam dando sopa. Na real, coisas encaixotadas são mais práticas para tirar do carro.
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- desculpa, você pode me dar uma licencinha?
Era o moço do eco-casal-camelo que voltou carregando tudo com os dedos gangrenados.
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- pois não, respondi educadamente
- é rapidinho, viu...?
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Eu achava que ele tinha esquecido de carimbar o papel do estacionamento. Engano meu. Ele apoiou a sacola brega dele em cima das minhas compras e cochichou no ouvido da mulher do caixa. Ela deu um punhado de saquinho de embalagens, aqueles que a gente empacota as compras do supermercado, aqueles que quem leva ecobag é justamente para não usar.... sabe?? Ele pegou com os dedos gangrenados, enfiou na ecobag e foi embora.
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- é que acabou os saquinhos de lixo da casa dele – disse a mulher do caixa.
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imagem 1: Cow, de Andy Warhol
imagem 2: Play with your Food, de Elffers & Freyma
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25 setembro 2008

cogito, ergo sum

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Foi num desses genéricos de Super Nanny – aquele programa que doutrina crianças normais com pais bananas – que escutei uma coisa dessas:
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- vai ficar de castigo! vai pensar, vai!
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Entendi mal ou pensar virou sinônimo de castigo? Senhoras e senhores, pensar é coisa ruim. Pensar é punição. Talvez para Descartes, Nietzsche, Freud, Sartre, Pessoa, Machado realmente seja. Não é o caso aqui. Estamos falando de cotocos de gente, crianças normais de 4, 5, 6 anos.
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Juro que eu era uma pessoa mais tolerante, complacência era meu nome. A idade avança, a gente fica mais crítico (ou chato, como queiram) e de repente percebe que idiotice generalizada dá uma dor de barriga do escambau. Dá um desânimo ver que a gente se esforça tanto para ensinar coisas decentes – e uma simples fala na televisão te joga de volta para o mundo da realidade.
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Outro dia, li a sinopse de um filme infantil. Uma professora de matemática deixa a vida no interior para ir atrás do sonho: ter uma vida de atriz. Sucesso artístico não no mundo das artes, e sim no mundeco eu-apareço-na-televisão. Triste, muito triste. Fica ainda mais catastrófico quando a “dona” do filme influenciou e ainda influencia manadas de crianças. É a nossa geração pensante vindo aí pessoal!
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Buenas, do filme eu ainda escapo, mas das leis não tem como fugir. Uma lei maluca determina que as crianças do pré-primário façam parte do ensino fundamental. Aí, os mandachuvas percebem a cagada que fizeram e vão repertir de ano os aluninhos de três anos. Tem pais chiando, escolas se descabelando e crianças sendo colocadas de castigo – para pensar, of course.
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Difícil, meus caros, difícil... Ainda mais que daqui a algum tempo eu estarei escrevendo errado. A reforma ortográfica vai foder (no sentido literal) quem escreve certo, porque quem escreve errado vai continuar escrevendo errado.
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A gente rema, rema, rema. Sempre contra a maré.
Só espero não morrer na praia.
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A man who does not think for himself does not think at all.
Oscar Wilde

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imagem: Hey you, de Roy Lichtenstein
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lei da gravidade

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caiu tudo minha gente
caiu internet, tv a cabo, bolsa de valores, azeite no chão, brinco na privada....
que dia, meu deus... que dia...
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Parêntesis
Mario Quintana
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(Em meio ao turbilhão do mundo
O Poeta reza sem fé)
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imagem: Concealed Spiral Binding, de Keith Haring
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